# 49 – Ana Paula Tavares (1 poem)

28 04 2015

 .

To cry not to cry

the plain stays the same

Cabinda proverb

we colonized life

sowing

each one in each other’s sea

the nails of distance

of word

of madness

filling memory with splinters

we fill up days with emptiness

.

.

above these walls

so white

two old flags

at half mast

salute each other, both solemn

 .

 .

Translated by Wagner Miranda





# 48 – “Sonhos ruins são bons”, de Joni Mitchell

15 02 2015

joni portrait

Sonhos ruins são bons

 .

.

Os gatos estão nos canteiros

Um falcão vermelho passeia no céu

Acho que eu deveria estar feliz

Só de estar viva

Porém,

A tudo envenenamos

E alheios a tudo isso

Zumbis ao celular balbuciam

transitando por shopping centers

Enquanto condores despencam de céus indianos

Baleias encalham e morrem na areia

Pesadelos são bons

No Plano Superior

.

.

E você não é flor que se cheire

Será que você sabe que está mentindo?

É perigoso se iludir

Você fica surdo, estúpido e cego

Você veste a carapuça como de direito

Você age com má conduta

Você é desprovido de graça

De empatia

De graditão

.

.

Você não tem senso de consequência

Oh, cubro minha cabeça com as mãos

Sonhos ruins são bons

No Plano superior

.

.

Antes da maçã que a tudo mudou

Éramos um todo com o mundo

Não havia senso de individualidade ou de outro

Não havia a autoconsciência

Mas agora temos que nos agarrar

A este mundo fabricado pelo homem, em retrocesso

Com um olho no egoísmo fatal de nossos irmãos

.

.

Todos aqui são vítimas

Ninguém tem as mãos limpas

Muito pouco restou do intocado Éden, paraíso na terra

Então, próximos das mandíbulas de nossas máquinas

Vivemos nestas cicatrizes elétricas

Essas lesões um dia foram lagos

Não sabemos arcar com a culpa

Ou aprender com erros passados

Então quem é que vai salvar o dia?

O Super Mouse? O Super-Homem?

Sonhos ruins são bons

No Plano superior

No escuro

Um raio a brilhar

Ouvi um menino de três anos falar

Sonhos ruins são bons

No Plano superior

 .

 .

Traduzido por Wagner Miranda





# 47 – “Submerged poem”, by Roberto Piva

27 06 2014

 

Submerged poem

I was a bit of your violent voice, Maldoror,

when the green angel’s eyelashes wrinkled the

chimneys from the street I walked

And saw your girls destroyed like frogs by

a hundred birds strongly passing by

 Nobody cried in your realm, Maldoror, where the

infinite landed in the palm of my empty hand

And prodigious boys were assaulted by the absent

Creator’s soul

 There was a more than unbiased revolver spied on by

Amoebas in the ceiling gnawed by your butterflies’ urine

An always big blue garden used to lay down stains in

my cranked up eyes

 I walked those paths looking with beserk tenderness

at girls in the big revelry in the beds

of dizzy insects

 Your dissatisfied chant sowed the old clamor of the

slaughtered pirates

 While the enigmatically shaped world stripped itself bare

to me, in delicate mazurkas

|

Translated by Wagner Miranda

_____________





# 46 – Geruza Zelnys, 5 poems

2 06 2014

bonsai

 

some days I feel like

a bonsai

 

two amputated meters

and a heart dragged

on the ground

 

not that I aimed to reach the clouds

I just refuse having my dreams

constantly trimmed

 

 

melomel red

 

my heart

menstruates

its aborted

affections

 

 

a lie

 

the mirror tells me a lie

I straighten my torso

I puff up my chest

fooled, I smile

 

and happily leave

for work

 

 

 

last chapter

 

six months later:

 

everything was

just like six months before

 

 

after 10

 

my life wakes up late

with messy hair

and pajamas on

 

it tells me it is tired of me

and then goes back to sleep

 

Translated by Wagner Miranda

_____________

Geruza’s blog (in Brazilian Portuguese): http://geruzazelnys.blogspot.com.br/

 





# 45 – “Coruja”, de Liz Berry

18 05 2014

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Coruja

_____________

Meu corpo desperta com as constelações,

estrela por estrela na escuridão sufocante. Eu plano

sobre as casas guardadas por cães, o gado

_______________

mugindo no curral iluminado pela lua. Um pacote

de pele, dentes e ossos cai de mim,

um aviso esqueletal. Trago mensagens

_____________

do lugar mais obscuro. Uma criança que tosse sangue

no vilarejo, uma mulher no leito do rio Ruhuhu,

suas órbitas vazias, um punho marcando o rosto de um menino.

____________

Eu aflijo as sombras com a minha canção de luto:

Huuu-huu-huu-buhuhu-huu. Eles atiraram no meu amor

com uma flecha de madeira e pregaram seu peito branco

________

na moldura da porta para me manter longe.

Isso me trouxe para mais perto. Transmorfos escamotearam meu corpo

e eu acolhi sua perversidade em mim. Comigo os levei

____________

até lares sonhadores, camas de amantes,

 mães maldizendo bebês adormecidos. Carreguei maldições

entre minhas garras, a seca em meu bico.

________

Furiosa, atravessei a escuridão abrasadora num mergulho,

sobrevoando crianças com arcos, em busca de seu amor,

sua miserável face de coração, a forma da tristeza.

____________

Traduzido por Wagner Miranda

_____________

Página oficial da Liz (em inglês): http://lizberrypoetry.co.uk/

 





# 44 – “Density 45”, by Heyk Pimenta

16 02 2014

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Density 45

 

written in June 2012 and edited in 2013

 

 
In the mattress

filtered by its cover

or drank in pure drops

rests 10 times my volume

 

all the filth of the world

gathering grease

on the corner of things

 

5 years of mold and sloppiness

5 years of fervor

5 years of fear

 

– Lift it up, Caroll, the mattress to air it out

– Let’s buy a slat

– We have to make another cover

 

But there was no airing out, slat or cover

 

it rotted

green on brown

in our Chinese room

its cold and brown floor

 

all the humidity and ferns

and maidenhairs on the retaining wall in stone

from suck to bite marks spread along the mattress

which was

my own head,

inflated

my sorry eyes

 

today

bowed

in the guestroom standing upright against the wall

behind the door

there’s a corner missing from the mattress

 

all the more today

it remains folded in three

it became

a puff

a pauper sofa

of ulcers

in the living room

covered

surrounded by fleas

density 45 of dark grey foam

 

light grey cover

and a patch even lighter

getting lighter from inside to beyond

in layers

as if time applied

in candid coats

some ageing

or erased

by turning whiter and whiter

the love

 
Translated into English by Wagner Miranda

_
Original text in Portuguese:

 

Densidade 45

 

No colchão

filtrado pela capa

ou sorvido em gotas puras

está 10 vezes meu volume

 

toda a imundície do mundo

acumulando gordura

no canto das coisas

 

5 anos de mofo e desleixo

5 anos de fervor

5 anos de medo

 

– Levanta, Caroll, o colchão pra respirar

– Vamos comprar um estrado

– Temos que fazer outra capa

 

Mas não houve respiro ou estrado ou capa

 

ele apodreceu

verde sobre marrom

no nosso quarto chinês

seu piso frio e marrom

 

toda a umidade e samambaias e avencas

do muro de arrimo

em pedra

chupadas a mordidas pelo colchão

que era minha própria cabeça inflada

meus olhos sentidos

 

hoje

abaulado

no quarto de hóspedes

de pé

na parede

atrás da porta

falta uma quina ao colchão

 

mais hoje ainda

dobrado em três

tornou-se

um pufe

um sofá pobre

de úlceras

na sala

coberto

entre pulgas

 

densidade 45 de espuma cinza escura

 

capa cinza clara

e um remendo cinza ainda mais claro

clareando de dentro em diante

em camadas

como se o tempo pintasse

em mãos alvas

algum envelhecimento

ou apagasse

cada vez mais branco

o amor

 
Heyk’s blog: http://heykpimenta.blogspot.com.br/ (in Portuguese)





# 43 – “What’s next?”, by Jeanine Will

7 01 2014

jeanine will

What’s next?

to richey james

over the Severn

she lies

silent and gray

ironic, she’s the link

she knows your way

and much more than many others say

with so many gods,

why Neptune?

dazed and at random

eyeballing

the continuous flow

of wherever you go

I think about this life

vast and severe

halted by the grid

heartbroken

 

Translated into English by Wagner Miranda

Original text in Portuguese:

O que virá?

para richey james

sobre o Severn

ela se deita

silenciosa e cinza

irônica liga

sabe o teu rumo

e muito mais do que dizem muitos

com tantos deuses,

por que Netuno?

atônita e à toa

os olhos fixos

no fluxo contínuo

do teu caminho

penso nessa vida

grande e grave

parada na grade

inconsolável

Jeanine Will 

http://caminhaodemudanca.blogspot.ie/








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