# 50 – Lamium, de Louise Glück

27 02 2017

 

Lamium

por Louise Glück

 

É assim que se vive com um coração frio.

Como eu vivo: nas sombras, rastejando sobre pedras frias,

sob as grandes árvores de bordo.

 

O sol mal me toca.

Às vezes o avisto no início da primavera, nascendo bem ao longe.

Folhas nascem a recobri-lo, ocultando-o por completo. Posso senti-lo

reluzir por entre as folhas, errático,

como quem que bate na lateral de um copo com uma colher metálica.

 

Nem tudo o que é vivo requer

o mesmo nível de iluminação. Alguns de nós

produzimos nossa própria luz: uma folha dourada

como um caminho que ninguém pode trilhar, um raso

lago de prata na escuridão sob os grandes bordos.

 

Mas disso você já sabe.

Você e os outros que pensam

que vivem pela verdade, e por isso, amam

tudo o que é frio.

 

 

Traduzido por Wagner Miranda





# 12 – The journey, de Mary Oliver

26 07 2009

The Journey

One day you finally knew
what you had to do, and began,
though the voices around you
kept shouting
their bad advice–
though the whole house
began to tremble
and you felt the old tug
at your ankles.
“Mend my life!”
each voice cried.
But you didn’t stop.
You knew what you had to do,
though the wind pried
with its stiff fingers
at the very foundations,
though their melancholy
was terrible.
It was already late
enough, and a wild night,
and the road full of fallen
branches and stones.
But little by little,
as you left their voices behind,
the stars began to burn
through the sheets of clouds,
and there was a new voice
which you slowly
recognized as your own,
that kept you company
as you strode deeper and deeper
into the world,
determined to do
the only thing you could do–
determined to save
the only life you could save.

Mary Oliver

______________________

A jornada

Um dia você finalmente descobriu
o que tinha de fazer e então começou,
mesmo que as vozes que te rodeavam
continuassem vociferando
péssimos conselhos –
mesmo que a casa inteira
começasse a estremecer
e você sentisse a velha fisgada
em seus calcanhares.
“Redima minha existência!”
clamaram as vozes.
Mas você não se deteve.
Sabia o que tinha de fazer,
mesmo que o vento o perseguisse
com seus dedos enrijecidos
com todas as suas forças,
mesmo que a melancolia por eles possuída
se mostrasse  aterradora.
Já era tarde o suficiente,
e a noite, tempestuosa
e a estrada, repleta de galhos caídos
e pedras pelo caminho.
Porém lentamente,
ao deixar aquelas vozes para trás
as estrelas começaram a brilhar
através dos lençóis de nuvens,
e lá estava ocultada nova voz
que lentamente reconheceste como sua,
que se manteve em sua companhia
enquanto adentrava a passos largos
no mundo,
determinado a fazer
a única coisa que poderia fazer –
determinado a salvar
a única vida que pôde salvar.

Traduzido por Wagner Miranda








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