# 50 – Lamium, de Louise Glück

27 02 2017

 

Lamium

por Louise Glück

 

É assim que se vive com um coração frio.

Como eu vivo: nas sombras, rastejando sobre pedras frias,

sob as grandes árvores de bordo.

 

O sol mal me toca.

Às vezes o avisto no início da primavera, nascendo bem ao longe.

Folhas nascem a recobri-lo, ocultando-o por completo. Posso senti-lo

reluzir por entre as folhas, errático,

como quem que bate na lateral de um copo com uma colher metálica.

 

Nem tudo o que é vivo requer

o mesmo nível de iluminação. Alguns de nós

produzimos nossa própria luz: uma folha dourada

como um caminho que ninguém pode trilhar, um raso

lago de prata na escuridão sob os grandes bordos.

 

Mas disso você já sabe.

Você e os outros que pensam

que vivem pela verdade, e por isso, amam

tudo o que é frio.

 

 

Traduzido por Wagner Miranda

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# 37 – Eating poetry, de Mark Strand

12 12 2012

Comendo poesia

 

Tinta escorre pelos cantos da minha boca.

Não há felicidade como a minha.

Andei comendo poesia.

 

A bibliotecária não acredita no que vê.

Com olhos tristes

ela caminha com as mãos sobre o vestido.

 

Os poemas se foram.

A luz é parca.

Os cães estão na escada do porão, subindo.

 

Seus olhos giram,

suas pernas loiras queimam como um pincel.

A pobre bibliotecária começa espernear e chorar.

 

Ela não entende.

Quando eu me ajoelho e lambo sua mão,

ela grita.

 

Eu sou um novo homem.

Eu rosno para ela e lato.

Eu faço a festa na escuridão dos livros.

 

Translated by Wagner Miranda

 

______________________________________________________________

Original text

 

Eating Poetry

 

 

Ink runs from the corners of my mouth.

There is no happiness like mine.

I have been eating poetry.

 

The librarian does not believe what she sees.

Her eyes are sad

and she walks with her hands in her dress.

 

The poems are gone.

The light is dim.

The dogs are on the basement stairs and coming up.

 

Their eyeballs roll,

their blond legs burn like brush.

The poor librarian begins to stamp her feet and weep.

 

She does not understand.

When I get on my knees and lick her hand,

she screams.

 

I am a new man,

I snarl at her and bark,

I romp with joy in the bookish dark.

 

Mark Strand





#34 – Living, de Denise Levertov

24 06 2012

Imagem

Living

The fire in leaf and grass

so green it seems

each summer the last summer.

_

The wind blowing, the leaves

shivering in the sun,

each day the last day.

_

A red salamander

so cold and so

easy to catch, dreamily

_

moves his delicate feet

and long tail. I hold

my hand open for him to go.

_

Each minute the last minute.

Denise Levertov

 

__________________________

Vivendo

A chama em folha e grama

tão verde parece

cada verão o ultimo verão.

_

O vento soprando, as folhas

estremecendo ao sol,

cada dia o último dia.

_

Uma salamandra vermelha

tão fria e tão

fácil de pegar, distraidamente

_

move suas patinhas delicadas

e sua cauda comprida. Deixei

a mão aberta para ela partir.

_

Cada minuto o último minuto.

Traduzido por Wagner Miranda





#30 – Happiness, de Stephen Dunn

28 05 2011

 

Happiness

A state you must dare not enter
with hopes of staying,
quicksand in the marshes, and all

the roads leading to a castle
that road doesn’t exist.
But there it is, as promised,

with its perfect bridge above
the crocodiles,
and its doors forever open.

Stephen Dunn

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Felicidade

Um territorio em que não deve se atrever a entrar
com esperança de ficar,
areia movediça nos pântanos, e todas

as estradas que levam a um castelo
aquela estrada não existe.
Mas aqui está, como prometido,

com sua ponte perfeita sobre
os crocodilos,
e suas portas para sempre abertas.

Traduzido por Wagner Miranda





#28 – Seeds + Grit + Maybe we are, de Tom Waits

20 04 2011

Seeds

I am a seed that fell

Upon the hard ground

The hard ground

The hard ground

I am a seed that fell

Upon the ground

I am a seed that fell

Upont the ground

I am a leaf that fell

From an oak tree

An oak tree

From an old oak tree

I am a leaf that fell

From an oak tree

I am a leaf that fell

From a tree

I am a stone that is rolling

On a rough road

On a rough road

On a rough road

I am a stone that is rolling

On a rough road

I am a stone that is rolling

On the road

__________________________________________________

Sementes

Eu sou uma semente que caiu

Sobre o chão duro

O chão duro

O chão duro

Eu sou uma semente que caiu

Sobre o chão duro

Eu sou uma semente que caiu

Sobre o chão duro

Eu sou uma folha que caiu

De uma árvore de carvalho

Uma árvore de carvalho

De uma árvore de carvalho velha

Eu sou uma folha que caiu

De uma árvore de carvalho

Eu sou uma folha que caiu

De uma árvore

Eu sou uma pedra que rola

Em uma estrada áspera

Em uma estrada áspera

Em uma estrada áspera

Eu sou uma pedra que rola

Em uma estrada áspera

Eu sou uma pedra que rola

Na estrada

_________________________________________________

Grit

Can I get up off the mat

Like a wrestler that has

Been beaten, beaten

Can I get up and come

Roaring back?

________________________

Determinação

Posso eu me reerguer da lona

Como um lutador que

Foi derrotado, derrotado

Posso eu me reerguer e retornar

Triunfante?

___________________

Maybe we are

Maybe we are all members
Of an orchestra that is merely
Tuning up
And our curious trails
Are random scales
For a music that has
Yet to begin

Talvez sejamos

Talvez  sejamos todos membros
De uma orquestra meramente
A se entrosar
E nossos vestígios curiosos
São escalas aleatórias
Para uma música que ainda
Está por começar

_

Poemas traduzidos por Wagner Miranda

Poemas publicados no livro Hard Ground, com poemas de Tom Waits e fotografias de Michael O’Brien





#21 – The wind and the dove, de Bill Callahan

16 02 2010

The wind and the dove

Somewhere between the wind and the dove
Lies all I sought in you
And when the wind just dies, when the wind just dies
And the dove won’t rise
From your window sill

Well I cannot tell you
Which way it would be
If it was this way too
For the wind and the dove
For the wind and the dove

And I am a child of linger on
I peer through the window gone
I am a child of linger on
I peer through the window gone

Somewhere between the wind and the dove
Lies all I lost in you
And when the wind just dies, when the wind just dies
And the dove won’t rise
From your window sill

Well I cannot tell you
Which way it would be
If it was not this way too
For the wind and the dove
For the wind and the dove

And I am a child of linger on
I peer through the window gone
I am a child of linger on
I peer through the window gone

Bill Callahan

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O vento e a pomba


Em algum lugar, entre o vento e a pomba

Tudo o que tem ti busquei repousa

E quando o vento cessa, quando o vento cessa

E a pomba se torna incapaz de levantar vôo

Do parapeito da sua janela

_

Bem, não sou eu quem vai lhe dizer

Como as coisas irão acontecer

Se assim também foi

Para a pomba e o vento

Para a pomba e o vento

_

E eu sou um filho de uma dúvida que persiste

Olho para fora de uma janela que não mais existe

E eu sou um filho de uma dúvida que persiste

Olho para fora de uma janela que não mais existe

_

Em algum lugar, entre o vento e a pomba

Tudo o que em ti perdi repousa

E quando o vento cessa, quando o vento cessa

E a pomba se torna incapaz de levantar vôo

Do parapeito da sua janela

_

Bem, não sou eu quem vai lhe dizer

Como as coisas irão acontecer

Se assim também foi

Para a pomba e o vento

Para a pomba e o vento

_

E eu sou um filho de uma dúvida que persiste

Olho para fora de uma janela que não mais existe

E eu sou um filho de uma dúvida que persiste

Olho para fora de uma janela que não mais existe

_

Traduzido por Wagner Miranda





#20 – Assurance, de William Stafford

9 02 2010

Assurance

You will never be alone, you hear so deep
a sound when autumn comes. Yellow
pulls across the hills and thrums,
or in the silence after lightning before it says
its names – and then the clouds’ wide-mouthed
apologies. You were aimed from birth:
you will never be alone. Rain
will come, a gutter filled, an Amazon,
long aisles – you never heard so deep a sound,
moss on rock, and years. You turn your head –
that’s what the silence meant: you’re not alone.
The whole wide world pours down.

William Stafford

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Uma certeza

Você nunca estará só, pois ouve tão profundamente
um som ressoar com a chegada do outono. Brisas em tons de amarelo
sopram por colinas e cadilhos,
ou no silêncio que segue o trovão, antes que ele profira
seus nomes – e, em seguida, desculpas proferidas pelas bocas largas
das nuvens. Você foi predestinado:
você nunca estará só. A chuva
cairá, uma calçada pavimentada, uma Amazona,
longos corredores – você nunca ouviu um som tão profundamente
musgo sobre rocha, anos que se passaram. Você olha para trás
e descobre o que o silêncio lhe dizia: você não está só.
O vasto mundo rui por inteiro.

Traduzido por Wagner Miranda








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