# 47 – “Submerged poem”, by Roberto Piva

27 06 2014

 

Submerged poem

I was a bit of your violent voice, Maldoror,

when the green angel’s eyelashes wrinkled the

chimneys from the street I walked

And saw your girls destroyed like frogs by

a hundred birds strongly passing by

 Nobody cried in your realm, Maldoror, where the

infinite landed in the palm of my empty hand

And prodigious boys were assaulted by the absent

Creator’s soul

 There was a more than unbiased revolver spied on by

Amoebas in the ceiling gnawed by your butterflies’ urine

An always big blue garden used to lay down stains in

my cranked up eyes

 I walked those paths looking with beserk tenderness

at girls in the big revelry in the beds

of dizzy insects

 Your dissatisfied chant sowed the old clamor of the

slaughtered pirates

 While the enigmatically shaped world stripped itself bare

to me, in delicate mazurkas

|

Translated by Wagner Miranda

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# 46 – Geruza Zelnys, 5 poems

2 06 2014

bonsai

 

some days I feel like

a bonsai

 

two amputated meters

and a heart dragged

on the ground

 

not that I aimed to reach the clouds

I just refuse having my dreams

constantly trimmed

 

 

melomel red

 

my heart

menstruates

its aborted

affections

 

 

a lie

 

the mirror tells me a lie

I straighten my torso

I puff up my chest

fooled, I smile

 

and happily leave

for work

 

 

 

last chapter

 

six months later:

 

everything was

just like six months before

 

 

after 10

 

my life wakes up late

with messy hair

and pajamas on

 

it tells me it is tired of me

and then goes back to sleep

 

Translated by Wagner Miranda

_____________

Geruza’s blog (in Brazilian Portuguese): http://geruzazelnys.blogspot.com.br/

 





#16 – Dolores, de Adélia Prado

6 12 2009

Dolores

Hoje me deu tristeza,

sofri três tipos de medo

acrescido do fato irreversível:

não sou mais jovem.

Discuti política, feminismo,

a pertinência da reforma penal,

mas ao fim dos assuntos

tirava do bolso meu caquinho de espelho

e enchia os olhos de lágrimas:

não sou mais jovem.

As ciências não me deram socorro,

não tenho por definitivo consolo

o respeito dos moços.

Fui no Livro Sagrado

buscar perdão pra minha carne soberba

e lá estava escrito:

“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,

se tornou capaz de ter uma descendência…”

Se alguém me fixasse, insisti ainda,

num quadro, numa poesia…

e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…

Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,

das que jamais verão seu nome impresso e no entanto

sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas

não recusam casamento, antes acham sexo agradável,

condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo

e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.

__________________________

Dolores

Today I was struck by sadness,

I suffered from three kinds of fear

added to the irreversible fact:

I’m not young anymore.

I have discussed politics, feminism

the relevance of the penal reformation,

but at the end of the subjects

I used to withdraw my mirror potsherd from my pocket

and then had eyes flooded by tears

I’m not young anymore.

The sciences didn’t provide me any help,

I have no definitive consolation

the respect of young men.

I turned to the Scripture

in search of forgiveness to my superb flesh

and it was written there:

“It was for faith that also Sara, despite of her old age,

became able to have descendants…”

If someone, by any chance, pictured me, I insisted,

in a painting, in a poem…

and my slack muscles were objects of beauty…

But I don’t want it. I demand the common luck of the women towards the sinks

who will never see their names printed and, however,

support the world’s pillars because even being decent widows

they never say no to marriage. Contrariwise, they find sex pleasant,

condition to the normal happiness of wearing the hair with a strip

and broom the house they’re going to live in tomorrow.

Such hope I beg God.

Versão em inglês por Wagner Miranda

Dolores

Adélia Prado

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
“Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência…”
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia…
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos…
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.








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