# 48 – “Sonhos ruins são bons”, de Joni Mitchell

15 02 2015

joni portrait

Sonhos ruins são bons

 .

.

Os gatos estão nos canteiros

Um falcão vermelho passeia no céu

Acho que eu deveria estar feliz

Só de estar viva

Porém,

A tudo envenenamos

E alheios a tudo isso

Zumbis ao celular balbuciam

transitando por shopping centers

Enquanto condores despencam de céus indianos

Baleias encalham e morrem na areia

Pesadelos são bons

No Plano Superior

.

.

E você não é flor que se cheire

Será que você sabe que está mentindo?

É perigoso se iludir

Você fica surdo, estúpido e cego

Você veste a carapuça como de direito

Você age com má conduta

Você é desprovido de graça

De empatia

De graditão

.

.

Você não tem senso de consequência

Oh, cubro minha cabeça com as mãos

Sonhos ruins são bons

No Plano superior

.

.

Antes da maçã que a tudo mudou

Éramos um todo com o mundo

Não havia senso de individualidade ou de outro

Não havia a autoconsciência

Mas agora temos que nos agarrar

A este mundo fabricado pelo homem, em retrocesso

Com um olho no egoísmo fatal de nossos irmãos

.

.

Todos aqui são vítimas

Ninguém tem as mãos limpas

Muito pouco restou do intocado Éden, paraíso na terra

Então, próximos das mandíbulas de nossas máquinas

Vivemos nestas cicatrizes elétricas

Essas lesões um dia foram lagos

Não sabemos arcar com a culpa

Ou aprender com erros passados

Então quem é que vai salvar o dia?

O Super Mouse? O Super-Homem?

Sonhos ruins são bons

No Plano superior

No escuro

Um raio a brilhar

Ouvi um menino de três anos falar

Sonhos ruins são bons

No Plano superior

 .

 .

Traduzido por Wagner Miranda

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# 37 – Eating poetry, de Mark Strand

12 12 2012

Comendo poesia

 

Tinta escorre pelos cantos da minha boca.

Não há felicidade como a minha.

Andei comendo poesia.

 

A bibliotecária não acredita no que vê.

Com olhos tristes

ela caminha com as mãos sobre o vestido.

 

Os poemas se foram.

A luz é parca.

Os cães estão na escada do porão, subindo.

 

Seus olhos giram,

suas pernas loiras queimam como um pincel.

A pobre bibliotecária começa espernear e chorar.

 

Ela não entende.

Quando eu me ajoelho e lambo sua mão,

ela grita.

 

Eu sou um novo homem.

Eu rosno para ela e lato.

Eu faço a festa na escuridão dos livros.

 

Translated by Wagner Miranda

 

______________________________________________________________

Original text

 

Eating Poetry

 

 

Ink runs from the corners of my mouth.

There is no happiness like mine.

I have been eating poetry.

 

The librarian does not believe what she sees.

Her eyes are sad

and she walks with her hands in her dress.

 

The poems are gone.

The light is dim.

The dogs are on the basement stairs and coming up.

 

Their eyeballs roll,

their blond legs burn like brush.

The poor librarian begins to stamp her feet and weep.

 

She does not understand.

When I get on my knees and lick her hand,

she screams.

 

I am a new man,

I snarl at her and bark,

I romp with joy in the bookish dark.

 

Mark Strand





#31 – “Thousands” e “Too old”, de Leonard Cohen

8 10 2011

 

Thousands


Out of the thousands

who are known,

or who want to be known

as poets,

maybe one or two

are genuine

and the rest are fakes,

hanging around the sacred precincts

trying to look like the real thing.

Needless to say

I am one of the fakes,

and this is my story.

_________________________________________

 

Milhares

 

Entre os milhares

conhecidos,

ou que querem ser conhecidos

como poetas,

talvez um ou dois

sejam genuínos

e os outros são falsos,

rodeando os recintos sagrados

tentando parecer verdadeiros.

Nem preciso dizer

Que sou um dos falsos,

e esta é a minha história

______________________________________

 

Too old

 

I am too old

To learn the names

Of the new killers

This one here

Looks tired and attractive

Devoted, professorial

He looks a lot like me

When I was teaching

A radical form of Buddhism

To the hopelessly insane

In the name of the old

High magic

He commands

Families to be burned alive

And children mutilated

He probably knows

A song or two that I wrote

All of them

All the bloody hand bathers

And the chewers of entrails

And the scalp peelers

They all danced

To the music of the Beatles

They worshipped Bob Dylan

Dear friends

There are very few of us left

Silenced

Trembling all the time

Hidden among the blood –

Stunned fanatics

As we witness to each other

The old atrocity

The old obsolete atrocity

That has driven out

The heart’s warm appetite

And humbled evolution

And made a puke of prayer

 

______________________________________

 

Velho demais

 

Estou velho demais

Para decorar os nomes

Dos novos assassinos

Este aqui

Parece cansado e ataente

Devotado, profissional

Ele se parece muito comigo

No tempo em que ensinava

Uma forma radical de Budismo

Para os insanos sem salvação

Em nome da velha

Mágica sagrada

Ele ordena

Que famílias sejam queimadas vivas

E crianças mutiladas

Ele provavelmente conhece

Uma ou duas de minhas canções

Todas elas

Todos que banharam suas mãos em sangue

 

E os mastigadores de vísceras

E escalpeladores

Todos eles dançaram

 

Ao som dos Beatles

Todos adoraram a Bob Dylan

Prezados amigos

Poucos de nós restaram

 

Silenciados

 

Tremendo sem parar

Escondidos em meio ao sangue –

Fanáticos chocados

Enquanto testemunhamos uns aos outros

A velha atrocidade

A velha e obsoleta atrocidade

Que levou para longe

O apetite ardoroso do coração

E acanhou a evolução

E vomitou preces

 

Poemas traduzidos por Wagner Miranda





#23 – “Thousand year prayer”, Cowboy Junkies

16 03 2010

Thousand year prayer

Here we all are at the end of this century of beauty and loss
Greedily ate what you gave us, the rest we tossed
We’ve trapped all your rivers, paved every pass
Pulled out your sky till we caused it to rip
But you’ve got Jimi Hendrix, so let’s call it an even split

I met a girl who has turned my whole world upside down

Stars I once stretched for now litter the ground

Cursed by too little lies, and too much belief

In the strength of another man’s words

But I’ve got a girl, thank you Lord
Here we all are at the start of another thousand year

All those love stories yet to be told

Ours is this river asleep at our feet

Blessed by this wet autumn day

Here we all are

Michael Timmins

___________________________________________

Prece dos mil anos

Aqui estamos reunidos, diante do fim de um século de beleza e perda
Com gana devoramos tuas ofertas e nos livramos dos restos
Represamos teus rios, pavimentamos todos os passeios
Cruzamos teu céu até rompê-lo por inteiro
Mas você tem o Jimi Hendrix, digamos que estamos quites assim

Conheci uma menina que virou o meu mundo de cabeça para baixo
Estrelas que um dia tentei alcançar agora se espalham pelo chão
Amaldiçoado por mentiras inofensivas e pela fé cega depositada
Na força das palavras proferidas por um outro homem
Mas eu conquistei uma garota. Obrigado, Senhor

Aqui estamos reunidos, diante de mil anos que se seguirão
E entre as histórias de amor a serem contadas
A nossa é este rio adormecido aos nossos pés
Abençoado por este dia úmido de outono
Aqui estamos reunidos

Traduzido por Wagner Miranda





#03 – “salmo” 50, do livro “Book of Mercy”, de Leonard Cohen

24 03 2009


50

I LOST MY WAY, I FORGOT to call on your name. The raw heart beat against the world, and the tears were for my lost victory. But you are here. You have always been here. The world is all forgetting, and the heart is a rage of directions, but your name unifies the heart, and the wolrd is lifted into its place. Blessed is the one who waits in the traveller’s heart for his turning.

50

EU ME PERDI, EU ME ESQUECI de invocar o teu nome. O coração em fúria bate contra o mundo, e as lágrimas derramadas foram pela minha vitória perdida. Mas você está aqui. Você sempre esteve aqui. O mundo inteiro está se esquecendo, e o coração é um sem-fim de direções, mas o seu nome unifica o coração, e o mundo é colocado de volta ao seu lugar. Bem aventurado é aquele que espera dentro do coração do viajante pelo seu retorno.

Traduzido por Wagner Miranda








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