# 51 – LAVADORA AUTOMÁTICA DE NETEZON, de Charlotte Van den Broeck

15 04 2017

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LAVADORA AUTOMÁTICA DE NETEZON

 

Minha mãe chora quando lava roupa.

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Esse é o momento ideal para as mães chorarem,

pois o cesto giratório das máquinas de lavar

costumam fazer um barulhão.

Ainda ouço os soluços dela, mas tão baixos

que podiam mesmo ser qualquer ruído ambiente.

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Uma lavadora de roupas lambe as feridas do dia.

Nela podemos pôr tudo o que não cabe na cabeça.

Lençóis limpos, por exemplo.

Ou o cheiro de cigarro no casaco do seu avô com câncer de garganta.

Ciclo longo, 60 graus, ritual de limpeza.

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Passei um tempão achando injusto ter uma mãe chorona.

Como se tivesse que ir pra escola carregando uma mochila mais pesada

e sempre que brincávamos de Corre Cotia

Por um segundo eu achava que o lencinho era para a mamãe.

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Compreendi o fenômeno da “mãe chorona” quando descobri

que não tinha água suficiente, era por isso que ela olhava para a máquina de lavar

pensando muito em gatinhos mortos, apenas o suficiente

para conseguir lavar usando as próprias lágrimas.

Eu cresci com manchas de sal em minhas roupas.

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Traduzido por Wagner Miranda, a partir da tradução do holandês para o inglês de Michele Hutchinson





# 50 – Lamium, de Louise Glück

27 02 2017

 

Lamium

por Louise Glück

 

É assim que se vive com um coração frio.

Como eu vivo: nas sombras, rastejando sobre pedras frias,

sob as grandes árvores de bordo.

 

O sol mal me toca.

Às vezes o avisto no início da primavera, nascendo bem ao longe.

Folhas nascem a recobri-lo, ocultando-o por completo. Posso senti-lo

reluzir por entre as folhas, errático,

como quem que bate na lateral de um copo com uma colher metálica.

 

Nem tudo o que é vivo requer

o mesmo nível de iluminação. Alguns de nós

produzimos nossa própria luz: uma folha dourada

como um caminho que ninguém pode trilhar, um raso

lago de prata na escuridão sob os grandes bordos.

 

Mas disso você já sabe.

Você e os outros que pensam

que vivem pela verdade, e por isso, amam

tudo o que é frio.

 

 

Traduzido por Wagner Miranda








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